Editorial

"Entre a Ética e o Poder

Quando uma autarca diz, de forma clara, que "o Poder não é conquista, é responsabilidade", está a corrigir um dos maiores vícios da política contemporânea: a tentação de confundir o voto com um cheque em branco. 

Há discursos que se esgotam nas palavras, e há outros, que se transformam em sinais políticos. O proferido por Fátima Fernandes, na tomada de posse dos novos Órgãos Autárquicos, pertence inequivocamente ao segundo grupo. Não foi apenas a celebração de uma vitória eleitoral — foi a reafirmação de uma forma de estar no Poder: sem arrogância, com sentido de dever e com respeito pela verdade.

Logo à partida, o tom do discurso revelou o essencial — a recusa do triunfalismo e a afirmação da responsabilidade como essência do poder democrático. Quando uma autarca diz, de forma clara, que "o Poder não é conquista, é responsabilidade", está a corrigir um dos maiores vícios da política contemporânea: a tentação de confundir o voto com um cheque em branco. Fátima Fernandes, sabe que o Poder Local não é uma trincheira partidária, mas uma missão de serviço público.

Ao agradecer aos autarcas cessantes - àqueles que já serviram o concelho, a Presidente reeleita demonstrou uma qualidade que escasseia na política: gratidão institucional. Não é apenas um gesto de cortesia — é um acto de maturidade democrática. A democracia não se constrói contra os outros, mas com os outros, mesmo os que já partiram. E esse gesto, aparentemente simbólico, diz muito sobre a matriz ética de quem o pratica.

Mas o centro de gravidade do discurso esteve na ideia de "cumprir". Cumprir é verbo exigente, porque obriga à coerência. Obriga a transformar promessas em políticas e palavras em resultados. Ao colocar o trabalho, a verdade e a ética como eixos de governação, Fátima Fernandes marcou distância face à cultura do improviso e da propaganda que tantas vezes domina o espaço político. O apelo à união — entre autarcas, empresários e sociedade civil — não foi mero formalismo. Foi a tradução de uma visão de território em rede, onde o desenvolvimento não depende apenas de decretos de Lisboa, mas da capacidade de cooperação e de convergência dos barrosões.

O seu discurso, mostrou ainda uma clara consciência das fragilidades estruturais do concelho e da necessidade de continuar a investir nas infraestruturas básicas, na economia local e na valorização do património barrosão. Há aqui um equilíbrio bem conseguido entre pragmatismo e idealismo — o reconhecimento dos problemas, sem ceder ao discurso miserabilista. Mais: quando afirma que "Montalegre tem tudo para vencer", não fala por hábito político: fala por convicção de quem conhece o território, sabe o valor da sua gente e entende que o futuro depende de um capital maior que o financeiro — o capital humano.

Outro ponto de mérito foi a forma como Fátima Fernandes devolveu centralidade aos idosos e aos mais vulneráveis. Numa época em que o assistencialismo serve tantas vezes de bandeira hipócrita, ouvir uma autarca dizer que os idosos são "a memória viva da história e cultura barrosã" é recordar que as políticas sociais não são favor — são dever. É aliás nesta dimensão humana, que o barrosismo ganha a sua força identitária: ninguém é descartável.

No seu discurso não esqueceu ainda a educação e o turismo, pilares da coesão e da afirmação externa de Montalegre. Ao falar de "um turismo sustentável, que respeite a natureza e proporcione experiências autênticas", Fátima Fernandes apontou o caminho certo: o da diferenciação pela autenticidade, e não o da massificação. A autenticidade é afinal, a marca genética de Barroso — uma região que nunca precisou de fingir o que é.

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